| Henry, é novo dono do Liverpool. |
Antes odiados por boa parte da torcida por causa da má fase em campo, Hicks e Gillett também viraram vilões ao tentarem impedir e atrasarem todo o procedimento com uma liminar concedida em Dallas, nos Estados Unidos, quando o anúncio oficial era aguardado. Na quinta, no entanto, nova vitória na justiça inglesa soou como irreversível dessa vez. E, após desgastante novela, o martelo foi oficialmente batido na tarde desta sexta.
- Estamos aqui para vencer. Estou feliz e orgulhoso - disse Henry.
A mudança surge como um sinal de nova era para os Reds. É justamente o verbo renovar que enche uma das torcidas mais fanáticas da Inglaterra de esperança. Não à toa o 15 de outubro de 2010 já é chamado por eles de “Dia da Independência”.
– Eu sei o quão frustrados estão os torcedores com o que tem acontecido e posso entender seus sentimentos. Mas todos nós temos sofrido com isso, especialmente a torcida, e agora é a hora de nós nos juntarmos e ajudarmos o clube a sair dessa situação – disse o capitão, porta-voz e “dono” do time, Steven Gerrard, após o anúncio da primeira decisão favorável no tribunal durante a semana.
Nesta sexta, véspera do clássico com o Everton pelo Campeonato Inglês, o técnico Roy Hodgson afirmou que a conclusão do negócio "tirou uma nuvem de cima do clube" e dará tranquilidade aos jogadores. Em um comunicado oficial no site dos Reds, o NESV revelou que também pagou boa parte da dívida do Liverpool, reduzindo-a de um valor entre 25 e 30 milhões de libras (R$ 66 a 80 milhões) para outro entre 2 e 3 milhões de libras (R$ 5 a 8 milhões).
Os conflitos internos, que marcaram um dos períodos mais conturbados da história do Liverpool, começaram quando Hicks e Gillett quebraram o acordo com o banco escocês na última renegociação da dívida (cerca de R$ 633 milhões) e afastaram o diretor comercial Ian Ayre e o chefe-executivo Christian Purslow. Além de desmentir publicamente o presidente Martin Broughton, que havia anunciado a venda para o NESV.
Como o prazo estipulado para o pagamento de boa parte do débito (R$ 528 milhões) vencia na sexta-feira, o descumprimento do trato com o RBS acarretaria em um pedido de concordata e a perda de nove pontos no Campeonato Inglês, que jogaria os Reds para a lanterna, com menos três pontos.
| O chefe-executivo Christian Purslow e o presidente Martin Broughton deixam o tribunal na última quarta-feira: êxtase pela vitória durou até o fim do dia. Novela sobre a venda do Liverpool se arrastou até esta sexta. |
A vitória, então, trouxe os dirigentes de volta ao comando e o anúncio da venda passou a ser questão de horas, já que o responsável pelo negócio e à época provável futuro dono, John W. Henry, chegou à Terra dos Beatles na noite de quarta. Mas outra ação na justiça, dessa vez em Dallas, nos Estados Unidos, impediu a oficialização do negócio. Na quinta, outro triunfo do RBS na justiça inglesa anulou o pedido de Hicks e Gillett, alegando que “o caso nada tinha a ver com o Texas”. Torcedores novamente foram às ruas comemorar mais um capítulo vencido.
O fim da novela estava próximo. Embora outros dois compradores tenham mostrado interesse, sendo um empresário de Cingapura, que ofereceu R$ 950 milhões, e um fundo americano (Mill Financial), ambos desistiram depois de o clube praticamente desprezar as propostas. Com o caminho livre para o NESV, faltava apenas o sim da justiça. E ele veio nesta sexta-feira, logo após Hicks e Gillet retirarem a ação em Dallas (com a promessa de processar o clube e seus dirigentes em R$ 4,2 bilhões de indenização pela "trapaça"). Uma vitória com gol nos acréscimos do segundo tempo que deixará as preocupações de lado por tempo ainda indeterminado.
– Se o torcedor vir que o time dele está forte não vai se importar muito de onde está vindo o dinheiro. Lembro de quando a MSI comprou o Tevez, fui assistir ao primeiro jogo do argentino, conversei com torcedores e só via felicidade. Levantei a questão sobre indícios de lavagem de dinheiro, mas ninguém estava ligando. A mentalidade do torcedor inglês tem sido a mesma. O Chelsea e os times de Manchester não me deixem mentir – afirmou Tim Vickery, correspondente da BBC na América do Sul.
| Torcedores mostram insatisfação com gestão dos americanos: cerca de R$ 628 milhões em dívidas. |
Especializado em futebol internacional, o jornalista Décio Lopes também vê problemas na gestão inglesa.
– Acho que há uns cinco anos todos acharam que o futebol era grande negócio, principalmente a Premier League. Li uma reportagem que apontava lucros tão grandes quanto os esportes americanos, e isso atraiu muita gente. A lei também facilita, e aí aparece um monte de lavador de dinheiro. É lucrativo para o jogador, para o agente, para o patrocinador, mas para o clube não. Eles (Hicks e Gillett) quebraram a cara mesmo – disse.
Os muitos problemas;
Uma das soluções para a crise é, de imediato, abrir o cofre. Com seis pontos, o Liverpool amarga a 18ª colocação após sete rodadas de Premier League, competição que não conquistou uma vez sequer em 18 edições. O Manchester United, um dos maiores rivais, no entanto, aproveitou o período de “hibernação” dos Reds e levou o caneco em 11 oportunidades, igualando-se em 18 títulos no total. No próximo domingo, o clássico contra o Everton, no Goodison Park, pode definir qual será o rumo da crise nas semanas seguintes.
| Hicks e Gillett fizeram de tudo para impedir a venda dos Reds |
A conquista na temporada 2004/2005, em reação épica sobre o Milan, foi a última renomada do clube, que não levou um título sequer na gestão de Tom Hicks e George Gillett (2007-2010). A chegada do NESV é uma promessa de luz no fim do túnel para o projeto da nova arena. Dificuldades financeiras tinham arquivado a renovação e ampliação do Anfield, com capacidade atual para 45 mil lugares.
Dentro de campo, porém, é onde reside outro grande problema. O inglês Steven Gerrard e o espanhol Fernando Torres são os únicos craques incontestáveis do time e, devido à longa crise, mantê-los a cada janela de transferências é um esforço cada vez maior para o Liverpool.
– O Gerrard, mesmo com a identificação que tem, um jogador com a cara do clube, deve estar louco para ir embora. O Torres nem se fala. Ninguém vai querer ficar em um time que só perde, só dá problema... Não há muita perspectiva em um futuro próximo. É um poço sem fundo – analisou Décio Lopes.
Atento ao perigo da zona de rebaixamento, os Reds já propõem investir cerca de € 40 milhões (R$ 92 milhões) no mercado de inverno europeu, em janeiro. Pressão não vai faltar.
Créditos: GloboEsporte
Por Victor Canedo, Rio de Janeiro.
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